2 de agosto de 2011

All these asphyxiated, self-medicated;

Outro dia. 
Maquiagem borrada. Lembranças do pó compacto, cartela de sombras, excesso de rímel e expectativas criadas  com certa antecedência. Lápis de olho. O contraste entre boca, o batom vermelho que insistira em ficar e a palidez doentia da pele, era obra de arte juntamente com as novas marcas arroxeadas ao longo de seu corpo. Como ela poderia lidar com o fato de ser a artista? O peso em sua mente não era mesmo apenas físico. Poderia tentar fugir dos detalhes restantes e encontrar um álibi apropriado para a noite anterior, mas o buraco negro que construíra dentro de si, na tentativa frustrada de tapar aquele "vazio", seria difícil disfarçar. 
O cheiro era prova. Suor pelo seu corpo e roupas de cama, roupa íntima. Algo como álcool. Fumaça em geral. Era diferente do que chama-se "arrependimento", seu íntimo, envergonhado, compreendia o rumo mal escolhido. Suas vísceras pareciam suplicar socorro em cada uma das vezes em que ela se ajoelhava, trancada no banheiro, vomitando o exagero do que prometia ser a cura durante a madrugada, ou basicamente, lembrando de outros instantes em que sobre seus joelhos apoiara-se por outros motivos e não tivera forças para manifestar algum tipo de oposição. 
As apostas, consumidas com o uso de seringas, foram rapidamente convertidas em morfina. A cicatriz não desaparecera. Não desapareceria. As cicatrizes. Feridas abertas e seu corpo infeccionado, se perguntava pelo que substituiria os pontos ou ajuda médica. O toque de cenas que reapareciam com as manchas provocadas por bocas, dentes, mãos e unhas, desejo e submissão. O corpo inteiro.
Espelho, água, sabonete, escova de dentes, maquiagem, perfume, cabelos. De novo. Fantasia e uma outra máscara, para abrir as janelas do apartamento e sair pela porta, chegando após um tempo com nada além de sinais de pura diversão, novamente.

5 comentários:

  1. "mas o buraco negro que construíra dentro de si, na tentativa frustrada de tapar aquele "vazio", seria difícil disfarçar. "

    Nem uma tonelada de maquiagem consegue tapar o vazio existencial que as vezes nos cerca.
    Nem todos os medicamentos do mundo conseguem essa proeza.
    E com isso muitas vezes as pessoas vão vivendo usando "máscaras" cada vez mais.
    Algumas conseguem abandonar essas máscaras, já outras vão só trocando de máscaras e vivendo o que acham que é diversão.


    Beijos

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  2. Hm. Sabe, foi bem extravagante, por assim dizer, mas digo, a história dela poderia ser mudada se desejasse. Mas ela insiste nas "máscaras".
    Gostei :}

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  3. quantas vezes as máscaras nos são necessárias, não pra proteger do mundo, mas de nós mesmos...seu conto é intenso, feroz, gostei^^

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  4. A diversão se veste bem. Atrás de marcas e combinações, pinta um mundo ocasional, pois o planeta não se alimenta de melancolia.

    A sua definição é meticulosa. Existe um contraste em palavras que faz o texto soar aterrador e intenso. Quase uma descrição de cena.

    Acho que intensidade é mesmo a palavra.

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Críticas são sempre bem vindas, comentem a tragédia (ou não).