26 de outubro de 2010

Pormenores de um passado


Ela se perguntava pela acepção da palavra "facilidade". Diariamente. 

Foram 11 filhos e ajuda do marido. As horas eram determinadas pela posição do Sol. Quando a lua mandava saudações, o lampião poderia entrar em cena.Cuidado era preciso para evitar acidentes ao manejar o fogão a lenha. Como refeição, apresentariam-se o arroz, o feijão e o que mais fosse produzido em seu próprio pedaço de terra. Não existe conforto na divisão de uma cama por, em média, 4 pessoas, mas era preciso. Após essa etapa, todos poderiam abandonar, enfim, o cansaço de um dia inteiro para, dali algum tempo, retomar a batalha. Batalha pela sobrevivência.
A casa era pequena, menor ainda comparada ao terreno. Cada centímetro era bem aproveitado, o desperdício morava longe. Plantar, podar, colher e vender significavam mais que verbos: significavam um grande objetivo, cujo valor era medido através de manhãs e tardes gastando forças, física e emocionalmente, sob o sol que fazia arder e quase não se sentia. Reclamar seria um luxo. 
O banho poderia aliviar, se não fosse mais um desafio. A água nem sempre era aquecida (por meio do mesmo fogo que permitia a arte de cozinhar). A família compartilhava uma bacia ou canecas para auxiliar na higiene corporal. A limpeza das roupas se dava também com esforço, mas sem falta. Tendo orgulho de ser mãe e, querendo sempre o melhor para seus filhos, Irene nunca permitira que andassem sujos como se a preocupação não a acompanhasse. Estudaram até quando fora possível. O caminho até a escola não se adequava apenas a palavra cansativo e, ainda assim, era percorrido a pé. 
Cansativo também refere-se ao que enfrentaram durante a luta contra determinadas enfermidades. Epidemias se transformaram em grandes inimigos e atacaram sem medo de ferir. A persistência dos pais ficara evidente após a garra demonstrada pelos escudos utilizados nessa guerra. A defesa fora resistente o suficiente para provocar a desistência da catapora, que cobriu corpos infantis inteiros, deixando cicatrizes que ainda vivem, mas foi-se. Contra o sarampo preto (febre maculosa) reforços foram necessários, lê-se hospital. O pior ataque foi o da tosse comprida (coqueluche). Atingindo um dos filhos mais novos, manifestou-se em hora errada: em meio a estrada e um vendedor de laranjas oferece uma ao menino. A oferta fora inicialmente negada pela mãe, que apenas cedera motivada pela insistência pueril. Apesar do cuidado ao consumir a fruta, a falta de ar marcara os minutos seguintes. O garoto perdera a coloração da pele que, aos poucos, voltara... Um pouco diferente. Ficara praticamente azulado e com o corpo mole. Irene, tomada por desespero, gritava aos céus pedindo ajuda, agarrara o menino com força e obedecera sua intuição, colocando em prática seu conhecimento quase nulo sobre respiração boca a boca. Chegara a crer na derrota quando, para seu alívio, o filho voltara a respirar.
A família nunca deixara de estar unida e, juntos, escreveram péssimos e ótimos episódios. Já visualizando o ano de suas bodas de ouro, o casal mantém muito mais do que amor, afeto. Os onze que já não são mais crianças, encontram-se casados e são responsáveis pelo crescimento ainda maior dessa união: seus filhos somam mais que 20, chamam-se de primos e orgulham-se do passado, base de como hoje vivem sem grandes excessos.

Texto (verídico) escrito em homenagem a minha avó, seu aniversário, as histórias que me deu a oportunidade de conhecer e o que significam para mim.

19 de outubro de 2010

Reflexo em diferentes níveis.

Ontem: trabalho de literatura. Hoje: uma postagem a mais.


Entre a minha casa e a sua, há uma ponte de estrelas. Constituídas por recordações curiosas, sorrisos singelos, sentimentos e palavras (não) ditas, representam a relativa distância entre nós. Relativa pelo fato de estarmos tão próximos e, simultaneamente, ridiculamente afastados.
Tais astros refletem, ainda que seja dia, aquilo que incontáveis desentendimentos e ilusões não puderam aniquilar. Refletem nada mais que os primeiros detalhes compartilhados, a vontade insistente de caminhar de volta ao início e lutar contra barreiras invisíveis, construídas por orgulho e remorso.
Enquanto reina o Sol, por pouco não ofuscando por completo o brilho que mantém minhas esperanças, é praticamente inadmissível apostar minhas cartas nesse jogo. Como poderia arriscar atravessar uma ponte prestes a ser enquadrada na condição de pó estelar? Permanecemos estáticos, amedrontados. Duas crianças trancadas em suas respectivas casas.
Aguardo, quase sufocada por tamanha ansiedade, o cumprimento da Lua. Esta traz consigo a escuridão do anoitecer, que não vem deixando em evidência a simpatia, mas sim, destacando a imagem de uma extraordinária constelação, o que conforta meus olhos, as borboletas intoxicadas em meu estômago e indica o caminho até você. Observar pela janela da moradia já não me satisfaz, procuro abandonar o lado de dentro e, acumulando cada partícula de coragem em meu interior, de supetão, abro a porta.
A um disparo contra meu coração infortunado se assemelha o que sinto ao ver você, em frente a sua soleira, do outro lado. A ponte continua sem uso, ambas as partes não admitem ceder. Não é tão ruim, afinal, a contradição de sentimentos entre noite e dia e entre nós, viverá até que as estrelas se tornem faíscas, até que a fadiga nos domine. Prometo não me render.


5 de outubro de 2010

E eu esperaria,

e olharia as horas passarem em centenas de linhas separadas, mas eu recupero a compostura e me pergunto como acabei por dentro. (Panic at the disco - New Perspective)

Tudo se resume, agora, a esperar. Espero pelo sumiço do invisível que vive entre o nascer e o pôr do Sol, entre uma posição e outra dos ponteiros de um relógio, entre as diferentes marcas de um calendário qualquer, entre as mudanças de estação. Apenas espero, e cada vez com mais esperança, o passar daquele que dá sentido a si próprio: o tempo.
Fui intimada a fazer, deste, meu amigo e acredito que seja o melhor para mim. Estou disposta a respeitá-lo, afinal, não há outro modo de reencontrar minha felicidade. Por enquanto. Sou obrigada a simpatizar com a paciência e me ocupar com o que quer que seja, mas sempre na expectativa da chegada daquilo que este meu novo colega trará. Espero, assim, por nada além de seu "passar". Passe por mim, passe através, passe enquanto, passe além, passe afinal, passe para, passe como for...