25 de setembro de 2010

A place that we can run to...

... and do those things we want to, they won't know who we are.
Quando me encontro com a dor da sua partida, reconheço, então, a hora de me distrair. De me perder em algo novo talvez, visando me encontrar. Resolvi transformar teoria em prática e, enfim, agi. Sem reavaliar os motivos pelos quais tomei a decisão, apenas coloquei um chinelo de dedo, peguei o primeiro agasalho que avistei e as chaves de casa. Abri o portão e saí apenas com a certeza de que, quando cruzasse a porta novamente, haveria deixado toda a angustia acumulada há muito tempo do lado de fora, perdida em um lugar qualquer, sobre o qual prefiro não ter mais conhecimento.  O céu espelhando meu humor: nublado e, como parceria, o vento representando uma ansiedade esquisita e os pingos de chuva tocando o que não se resumia ao meu exterior. Fiz o mesmo percurso de sempre, caminhando devagar e aparentemente com calma. Atravessei a rua. E de novo. Pisei na calçada branca. Ah, aquela calçada branca... Mesmo molhada é a mesma, é a mesma depois de tanto tempo e inúmeras recordações. Quantas histórias já não tivera a oportunidade de escutar? Quantos passos, desesperados ou não, pudera constatar? O que, com toda a sua experiência, diria sobre mim naquele momento se pudesse falar? Quem sabe escolheria afirmar que eu estaria em busca de alguém ou da lembrança deste, já que, vendo agora com uma nova perspectiva, tal afirmação representaria um fato. Percebe-se que, na verdade, na tentativa de fugir e me descobrir, acabei me aproximando ainda mais do "problema". Muito mais do que me encontrar, meu coração precisava achar a pessoa a qual pertence e deseja em segredo.  Mergulhando por entre meus pensamentos e suposições, cada vez mais fundo, apertei o passo até avistar o local exato onde havia o encontrado com sua bicicleta há tempos atrás. Lembro-me da cena como se fosse recente, apesar de tentar apagá-la de vez em quando. Por um segundo, quase acreditei ser real... Ele estava parado ao meu lado, perguntando se eu estava bem, contando que não fora possível não se preocupar durante dias.  Senti a chuva engrossar e as gotas escorrerem por toda a minha face, como tristeza que se manifesta de repente. "Será possível que ele realmente não se preocupe mais? Ao menos um pouco?" Uma saudade tomou conta de mim. Continuei caminhando, prestando atenção nos detalhes, nos cheiros, no ritmo ao redor e, acima de tudo, reparei nas pessoas. O que levaria outros a sair durante uma tarde chuvosa para andar? Me confortou o sentimento de não estar sozinha, a possibilidade de alguém sentir o mesmo que eu e preservar lembranças tão preciosas daquela praça, enxendo a calçada de informações belíssimas. Me espantei com o poder da chuva em curar corações partidos e somente alguns possuírem sensibilidade para reparar... Procurei ignorar a areia que aos poucos percebi entre meus dedos, ignorei minha roupa se encharcando, ignorei posteriormente a angustia, ignorei fatos isolados e conclui que quando me encontro volto sempre à mesma pessoa, mas que me perdê-la dói demais. Talvez, mais do que eu consigo suportar. 
Ao chegar a minha porta, antes de encaixar a chave na fechadura, abandonei o que ainda restara de ruim em mim e decidi caminhar sempre que me deparar com a necessidade de tê-lo, já que tornar tal desejo realidade, pode nunca ser possível.